Estado de guerra - Capítulo 1

Sai do chuveiro, enxuga o corpo, desodorante, cabelos penteados, rímel, um pouco de base para disfarçar marcas da idade. Batom vermelho.

Ia ao mercado, coisa de toda a semana, mas é importante estar com boa aparência física. A pele negra já lhe criara tantos problemas ao longo de 55 anos de vida que, mesmo a contragosto, não abria mão de uma roupa boa, um calçado confortável, mas de marca, tudo para não ser perseguida pelos olhares ofensivos dos vigilantes enquanto percorria os corredores, escolhendo os produtos alimentícios e de limpeza que necessitava para manter sua casa como gostava: limpa e cheirosa.

Enquanto calçava os sapatos de saldo médio, pensava que era muito triste ter que se preocupar em vestir bem só porque era negra e, assim, reduzir as chances de ser discriminada nas lojas, nos mercados e até no transporte coletivo.

Brigara muito ao longo dos anos, mas cansara. Resolvera aderir e mostrar que não era ladra, apesar de negra. Meu Deus, que coisa horrível, como podia pensar assim? Não deveria continuar lutando contra o preconceito até morrer? Ao aderir ao mau comportamento social, abrir a carteira na frente do caixa do supermercado com a clara intensão de mostrar que não era pobre, não estaria alimentando a ideia de que todo negro é ladrão e deve ser vigiado? Mas, a vida é como é, tinha mais com o que se preocupar: filhos, dois, marido, uma casa para cuidar e muitos compromissos profissionais como fisioterapeuta respeitada e conhecida.

Desce as escadas, com elegância, abre a porta da rua disposta a matar mais um leão na defesa da economia familiar, na imagem pública de mulher honesta e trabalhadora, ciente de que todos a olhavam, o tempo todo. Afinal, a cidade onde morava era minúscula, cerca de mil e quinhentos habitantes, uma igreja católica e duas ou três de outras religiões evangélicas, dois pequenos mercados que se intitulavam, pretensiosamente, de supermercado e até centro cultural. Ridículos é que os donos são, não passariam de “mercadinhos” em uma cidade maior.

Droga, o sol está apagado, ou melhor, escondido atrás das nuvens, negras, ameaçadoras. Será que vai chover? Volta, arma-se de um guarda-chuva elegante que adquirira em uma viagem à Paris. Não é muito adequado para ir ao mercado, mas é o que tem para o momento.

Caminha pelo jardim bem cuidado, florido e perfumado. Leva uma boa vida, graças ao seu trabalho e de seu marido. Os filhos estão na escola, saíram antes das oito horas da manhã. Pretende fazer as compras, tomar um café com amigas no único café elegante que funciona na cidade e depois apanhar os filhos no colégio. O marido, engenheiro civil, viajara para visitar uma obra em uma cidade próxima e deve voltar apenas à noite.

Coloca a mão dentro da bolsa elegante, um luxo que se dera na mesma viagem que fizera à Europa, encontra a chave e a introduz na fechadura do portão. Tenta girar a chave, mas parece que essa não funciona. Está absorta tentando abrir o portão quando uma mão masculina segura o portão. Ouve uma voz, autoritária:

- A Senhora não pode sair!

Levanta os olhos e vê um homem que segura uma arma longa com uma mão e usa a outra para impedir que ela abra o portão. O homem veste uma roupa tipo militar, mas não parece do tipo oficial, mas dessas que se vendem em lojas comuns. Não veste boné ou capacete militar e não traz nenhuma divisa militar.

Ela não tem grande conhecimento de vestimenta militar, mas tem alguns clientes militares que aparecem toda semana uniformizados em seu consultório de fisioterapia e pode afirmar que o homem age como um militar, mas não veste como militar, apesar da arma longa, que parece uma metralhadora, dessas que já viu em filmes.

- O que é isso, um assalto?

- Não, sou um soldado e a Senhora não pode sair.

- Porque?

- Não pode sair, não estou autorizado a informar os motivos.

Os olhos do homem são firmes, a barba por fazer lhe dá uma aparência pouco confiável. Imediatamente, pelo menos mais cinco homens se aproximam, todos armados, param em frente ao portão, de pés fincados no chão.

- Volte!

Será que estou sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo, pensa ela. Resolve enfrentar a situação. Abre a bolsa para pegar seus documentos de identidade, o homem que parece o chefe abre o portão com força, empurrando-a contra as folhagens, entra no pátio e toma-lhe a bolsa, antes que consiga munir-se dos documentos.

- A Senhora quer ser presa? Já disse, volte, agora.

O homem não gritava, mas suas palavras cortavam, tão firmes que eram. Ela sentiu medo. Virou-se e com passos trôpegos quase correu para dentro de casa, juntando entre as flores a bolsa que o homem lá jogara. Sem olhar para fora, fechou a porta com chave. Sentou-se no sofá da sala e pela claraboia da porta viu o homem sair do pátio, meter a mão em uma mochila e de lá retirar uma corrente grossa que passou no portão externo, prendendo-a com um enorme cadeado.

Os homens viraram as costas e ficaram ali, guardando o portão.

Ela, assustadíssima, mete a mão na bolsa, tira de lá um telefone celular e digita os números do marido. A mensagem é:

“Ligações telefônicas não estão autorizadas em razão do estado de guerra. Fique em casa e aguarde instruções”.

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João Marcos Adede y Castro

JOÃO MARCOS ADEDE Y CASTRO é graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria, sendo Mestre em Integração Latino Americana, pela mesma Universidade.

 

É doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Universidade del Museo Social Argentino, e doutorando em Direito Civil pela Universidade de Buenos Aires, ambas de Buenos Aires.  

 

Foi Promotor de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul por quase 30  anos, tendo exercido as atribuições de Promotor de Justiça Especializada de Defesa Comunitária, com atuação preponderante nas áreas de defesa do meio ambiente, interesses sociais e coletivos e improbidade administrativa. É Professor Universitário.

 

 É membro e  foi Presidente da Academia Santa-Mariense de Letras, ocupando a cadeira número 16, cujo patrono é o escritor e jurista  Darcy Azambuja. É advogado em Santa Maria, RS.

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© 2017 por João Marcos Adede y Castro

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